segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Isabela na apresentação de balé da prima:
- mamãe o som ta muito alto,
meu coração vai ficar surdo!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Da Alegria

Olhei pro céu agora pouco
As três marias e pertinho, a ponta da constelação de touro.
Na janela dos fundos do apartamento, onde, do miolo do prédio
o recorte (mínimo) do céu é retangular.

Certo reconfortar
as estrelas continuam lá.
Ainda posso vê-las, mesmo morando na capital
mesmo num pequeno retângulo
um pouco antes da uma hora da manhã
um silêncio.

As palavras cavadas sobre a tinta,
outras xerocadas e coladas repetidas vezes
Outras ainda,nebuladas ou esfareladas com o giz pastel seco.
Um recorforto
as palavras continuam lá
mesmo ilégiveis, mesmo apagadas ou borradas
em cores, em preto e branco.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Sobre femininos, fe-mínimos

Assisti a historiadora e doutora em teoria e critica de arte, Marlen Batista de Martino falando sobre sua tese de doutorado, Narrativas do eu - confissões na arte contemporânea - o corpo como diário (2009), uns dias atrás, e fiquei muito tocada, não só pelo seu belíssimo trabalho, mas pela leitura que ela fez de um poema escrito pela artista Faith Wilding, em 1971, com o qual a artista realiza uma performance. Obra que faz parte dos trabalhos pesquisados pela Marlen. Resolvi postar o poema aqui, em inglês, original:

Waiting
A Poem by Faith Wilding
Waiting . . . waiting . . . waiting . . .
Waiting for someone to come in
Waiting for someone to hold me
Waiting for someone to feed me
Waiting for someone to change my diaper Waiting . . .
Waiting to scrawl, to walk, waiting to talk
Waiting to be cuddled
Waiting for someone to take me outside
Waiting for someone to play with me
Waiting for someone to take me outside
Waiting for someone to read to me, dress me, tie my shoes
Waiting for Mommy to brush my hair
Waiting for her to curl my hair
Waiting to wear my frilly dress
Waiting to be a pretty girl
Waiting to grow up Waiting . . .
Waiting for my breasts to develop
Waiting to wear a bra
Waiting to menstruate
Waiting to read forbidden books
Waiting to stop being clumsy
Waiting to have a good figure
Waiting for my first date
Waiting to have a boyfriend
Waiting to go to a party, to be asked to dance, to dance close
Waiting to be beautiful
Waiting for the secret
Waiting for life to begin Waiting . . .
Waiting to be somebody
Waiting to wear makeup
Waiting for my pimples to go away
Waiting to wear lipstick, to wear high heels and stockings
Waiting to get dressed up, to shave my legs
Waiting to be pretty Waiting . . .
Waiting for him to notice me, to call me
Waiting for him to ask me out
Waiting for him to pay attention to me
Waiting for him to fall in love with me
Waiting for him to kiss me, touch me, touch my breasts
Waiting for him to pass my house
Waiting for him to tell me I’m beautiful
Waiting for him to ask me to go steady
Waiting to neck, to make out, waiting to go all the way
Waiting to smoke, to drink, to stay out late
Waiting to be a woman Waiting . . .
Waiting for my great love
Waiting for the perfect man
Waiting for Mr. Right Waiting . . .
Waiting to get married
Waiting for my wedding day
Waiting for my wedding night
Waiting for sex
Waiting for him to make the first move
Waiting for him to excite me
Waiting for him to give me pleasure
Waiting for him to give me an orgasm Waiting . . .
Waiting for him to come home, to fill my time Waiting . . .
Waiting for my baby to come
Waiting for my belly to swell
Waiting for my breasts to fill with milk
Waiting to feel my baby move
Waiting for my legs to stop swelling
Waiting for the first contractions
Waiting for the contractions to end
Waiting for the head to emerge
Waiting for the first scream, the afterbirth
Waiting to hold my baby
Waiting for my baby to suck my milk
Waiting for my baby to stop crying
Waiting for my baby to sleep through the night
Waiting for my breasts to dry up
Waiting to get my figure back, for the stretch marks to go away
Waiting for some time to myself
Waiting to be beautiful again
Waiting for my child to go to school
Waiting for life to begin again Waiting . . .
Waiting for my children to come home from school
Waiting for them to grow up, to leave home
Waiting to be myself
Waiting for excitement
Waiting for him to tell me something interesting, to ask me how I feel
Waiting for him to stop being crabby, reach for my hand, kiss me good morning
Waiting for fulfillment
Waiting for the children to marry
Waiting for something to happen Waiting . . .
Waiting to lose weight
Waiting for the first gray hair
Waiting for menopause
Waiting to grow wise
Waiting . . .
Waiting for my body to break down, to get ugly
Waiting for my flesh to sag
Waiting for my breasts to shrivel up
Waiting for a visit from my children, for letters
Waiting for my friends to die
Waiting for my husband to die Waiting . . .
Waiting to get sick
Waiting for things to get better
Waiting for winter to end
Waiting for the mirror to tell me that I’m old
Waiting for a good bowel movement
Waiting for the pain to go away
Waiting for the struggle to end
Waiting for release
Waiting for morning
Waiting for the end of the day
Waiting for sleep Waiting . . .
“Waiting” was performed at Womanhouse in Los Angeles sponsored by the
Feminist Art Program, California Institute of the Arts.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Expresso do Oriente
Atravessa a meia-noite,
recorta
A brisa atmosfera da sensação.
Meia-noite,
Partindo ao meio
Pequenos rajadas rumos risos
aguar
Expresso do Oriente, pela noite
Rumar rumor do mar
A noite recorta a Lua ao meio
Duas fatias, cintila lilaz afogados voz
Expressa, vadia recorta
O meio o avesso e o sobretudo.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

o que parte/o que fica ou o registro do desaparecimento

Escrevendo a pouco sobre a perda, em dois parágrafos, sem me dar conta, mesmo a frase completa imaginada, duas falhas de registro. Duas vezes os dedos suprimiram a palavra "há".

Toda fala é ato de fala, toda escrita se torna em ato de escrita. E para falar da dor da ausência os dedos esqueceram da palavra “há”.

Entre acontecimento e registro, algo se atualiza em letra, a cada frase. Dois atos-falhos identicos, seguidos. O que há é a ausência do haver;

domingo, 14 de novembro de 2010

My dear

Jamais
juro
Amour
Contenta contente
Viver perto
Onde a alma não repousa

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Diário de viagem São Paulo

08.11
"No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda"

(Ana Cristina Cesar - A teus pés)

07.11
Assisti o filme "Matei minha mãe", saindo do cinema
a frase de Ana Cristina Cesar repetindo-se em mim:
"Anjo que extermina a dor".

06.11
Frase na noite: "Como uma amiga minha diz: beijo na boca
e copo d'água não se nega a ninguém".

manhã Campinas - São Paulo
Escutei a criança chorando em desespero nos braços de sua mãe. Um menino de dois anos e meio (parecia). Clamava por socorro. Chorava em comvulsão e ânsia de querer evitar o destino que a mãe, o ônibus nos levava. Quis roubar o menino dos braços da sua mãe, que tentava abafar uma catástrofe da qual ela tomava parte. Ainda estou sucumbindo no horror desesperado da criança. Ainda ouço os seus gritos. Pedindo socorro a quem, se nos braços da mãe?

05.11
"Eu não sei qual é palavra certa."
"Mas eu estou em dúvida"


04.11
As mãos de Ana fazendo pão. Lá ela estava. Ou na esfera feita com os cabelos cortados. Lá estava ela. Com medo, mas ainda.
Você não encontra aberturas. Você as fabrica. Ana arrancou-me para fora da sua vida e eu parti. Primeiro raiva. Depois registro de algo que atravessou meu corpo e atravessa ainda a minha vida.
Onde você guarda a sua dor? Consegue senti-la agora vendo as mãos de outra artista num video. E só vê a Ana que partiu. Então chora.

Face to face
Linha delineia ângulo que curva o queixo o desenho riscado da barba sobre a pele morena.Projeto-me para caber na concha das mãos morenas. Ele escreve e não vejo mais o video. Vejo o gesto dele escrevendo com as mãos.


03.11
Lembro das minhas lembranças de um ano atrás, andando agora na mesma estrada a caminho de Campinas quando. Num mesmo início de novembro. Eu esperava, uma esperança. O desejo tremia pela janela. Hoje é lembrança da lembrança. Não dói mais.