segunda-feira, 24 de julho de 2017

Sobre a tentativa de se despedir da imagem mais bonita de uma capital

(ou, quando o fim do corpo do outro parece ser o fim de tudo).

carta-poema de abril

Eu amava nele sua força política. Sua coragem. Amava cada acento das suas palavras. Eu amava o ímpeto, a inteligência e a força de dizer, e dizer e dizer de novo, e dizer mais, ao infinito, para que toque nos corações e nas almas. Para transfigurar os espíritos. Eu ainda amo esse homem-autor. Essa imagem que preservo dele. Eu alimento ainda uma verdadeira e extraordinária admiração dele. Do que ele é, do que ele pensa. Na sua beleza convulsiva. Ou ela será convulsiva, ou nada será. Vladimir, tenho que dizer que para mim, unicamente para mim e de um modo extravagante(mente) particular a sua beleza me fere. Toquei essas imagens/margens - o sonho/a terra. A inefável, impossível e a íntima, de membranas finas e talvez, mais impossível ainda que a primeira. A matéria-etérea atravessa a matéria-carne e eu descobri uma forma de vida sem nome e sem lugar. Uma criação mútua, intensiva. Louca e faminta e depois um profundo mistério.

Sobre margens, simples:
o sonho
a terra
E entre essas margens, o mar.
Oceano pode ser um corpo
com braços ou então um não-corpo,
só vagas que se lançam
infinitamente sob a influência 
da lua.
Politika
Vida.
Sentir o olhar, o pensamento.
A presença. Sentir tantas coisas
sem ter - palavra, lugar, tempo
ou espaço.
E ainda assim. Viver, expandir e 
contrair.
as modulações do movimento.
Não ter lugar me lança no
obscuro desconhecido amanhã.
E devo lutar para que ele não se faça tão escuro. Os seus
olhos Vladimir, às vezes, aqui no meio de uma estranha travessia 
atravesso sigo percorro espaços onde ele, numa inédita ausência que é também presença,
segue por meus remexidos dentros.

Sobre margens, simples:
o sonho
a terra
E o mar.
A vida se derrama
e invade espaços 
de não-vida
se consomem
Arbitrariedades e dissoluções.
Palavras mínimas e um,
dois e depois três desaparecimentos.
Não escondo as feridas.
Mas perdi algo
além das margens.
imersão de um buraco-negro
Cair desabar sobre si 
mesmo
Mas não ter mais um eu
sobre o qual desabar.
Só uma constelação estranha de poeira
fragmentos
líquidos dispersos
Escoamento e por
alguns dias um enorme
e faminto verme a devorar
imagens de completude?

Você jogou uma pedra no abismo,
Mas até agora não escutou 
ela tocar o fundo.
Desfazimento da borda/margem
desse fundo.
Desfazimento
Quando joguei a pedra 
no abismo não reparei
Que era eu a própria 
pedra lançada com
paixão no grosso dessa experiência
E você foi comigo, o 
lançamento, a vertigem
da queda.
um corpo em movimento.
Fomos um corpo 
em desgoverno.
Feito em ato de lançamento
Uma explosão imoral 
de delícias diurnas.
E as vezes como ontem,
a noite, imagens-desenhos mudos não me deixam dormir como se houvessem imagens imorais noturnas à espera de nos implodir de novo. Mas como poderíamos nos reunir nossas partículas estilhaçadas dissolvidas no vento?



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