Poeta que não conhecia até ler a crítica (sempre tão especial) de Manoel Ricardo de Lima, publicada ontem - http://www.revistapessoa.com/2014/04/no-hay-nada/
“Eros Unbound”
sim, seremos amantes
solte sua voz
valvulada
durma comigo
seja meu cadáver esta noite
depois
ponha
os cílios postiços
e
desapareça
sem amor, sem paradas cardíacas
sejamos
apenas
dóceis animais empalhados
– ouça agora, revolva agora –
meu nome
é cão
– abra meu zíper –
palhas
domingo, 27 de abril de 2014
quarta-feira, 23 de abril de 2014
terça-feira, 1 de abril de 2014
In memória dos sonhadores
Não entendo nada. Agulhas, fios, não entendo nada. Não faz mal, entender, também não é motivo, não ter motivo, só ter vontades. Mesmo assim, são muitas investigações pelo caminho, onde moram todos os esforços, e o que você coloca neles. A pele que ela disse que você não tem, e vai fazendo subir pêlos arrepios contínuos e a sensação de febre constante como se levasse infinitas e sucessivas vezes, o calor e o frio para constituir um mínimo de superfície Carne exposta, você não suporta o cheiro da carne crua nas lojas de carne. Não suporta, a pele retirada do corpo, o horror de desossar os frangos, são pequenos atos bárbaros no cotidiano. Você não acessa esse cheiro de morte que paira sobre os frigoríferos, nos dentes que mastigam, no pavor que sente e que diverte depois sorrisos das pessoas que você ama profundo. Só querer seduzir a si mesmo. O nojo. Um medo enorme. Grandes grades gralhas, armadilhas, enredos e engodos. Um martelinho na mão. Palavras que já estavam lá, peixes roubados do aquário rosa, quase cintilantes, tinham uma beleza insólita, e erravam de alvo, os tiros, a metralhadora que ele carrega é letal, está cheia de lodo escuro, de uma escuridão quase absoluta funestas. Os carros fúnebres, alegoria. Uma banda que toca o hino nacional nas ruas, ela anda de mãos dadas com adultos pela rua cheia de gente, tem bandeirinhas como as das festas de São João e algazarra, tem o som dos tambores, e uma alegria imunda pela rua. Ela ainda é criança e muito pequena não sabe que os generais mandaram matar todos os sonhadores daquela cidade, não sabe identificar o ar fúnebre que ronda e paira um cheiro de morte nos tambores que a banda bate com força e marcha na avenida principal da cidade.
(Primeiro, 16.01.2014)
(Primeiro, 16.01.2014)
terça-feira, 25 de março de 2014
domingo, 23 de fevereiro de 2014
fragmento,
"O que acontece? Ele perde tudo. Mas perde tudo como se fosse nada. Perde tudo como se não houvesse diferença entre perder e ganhar. Nada mais do universo dessa circulação e das quantidades pode tocá-lo. Porque tudo isso foi reduzido a dimensão do MESMO. Como ele diz, como a gente ouve num momento bem impressionante: 'O Capital perdeu a sua qualidade narrativa', ou seja, ele não conta mais nada, ou seja, ele não diz mais nada, ele simplesmente dissolve os objetos através de uma circulação incessante. E dentro desse universo, a única coisa real é o choque. A única coisa real é a colisão. A única coisa real é a crise. A única coisa real é a morte. Ou seja a única coisa real é a dissolução."
fragmento do comentário sobre o filme Cosmópolis, de David Cronenberg, em
[Falar de si, lá onde não há mais si mesmo - Vladimir Safatle, disponível em http://www.cpflcultura.com.br/2012/10/05/falar-de-si-mesmo-la-onde-nao-ha-mais-si-mesmo-a-arte-contemporanea-e-sua-forca-construtiva-vladimir-safatle/]
fragmento do comentário sobre o filme Cosmópolis, de David Cronenberg, em
[Falar de si, lá onde não há mais si mesmo - Vladimir Safatle, disponível em http://www.cpflcultura.com.br/2012/10/05/falar-de-si-mesmo-la-onde-nao-ha-mais-si-mesmo-a-arte-contemporanea-e-sua-forca-construtiva-vladimir-safatle/]
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
M7 M7bis, Station Stalingrad
Vi você na rua outro dia, antes ainda. No corpo esbelto fino da modelo alemã. Vi depois no metro, no meio da tarde, você me olhou e fez que não era nada, esqueceu de cumprimentar. Eu ri um pouco dessa sua descompostura. E uma última vez, você usava aquele blazer azul de lã, de inverno, tão frio na rua, e uma calça cáqui. Dessa vez você não me viu. Estava muito ocupado ouvindo atentamente o que menina de cabelos longos dizia, eu andava pelo parque e cruzei com você, você estava bonito. Tentei desviar a rota, escolhi uma estradinha cheia de poças, mas o caminho ficou tão lamacento, que acabei voltando para a rua principal do parque e foi aí que segui você de longe, até você sumir naquela curva, com a menina. Eu fico pensando nesse olho opaco, que desfragmenta e faz fratura, que arremessa as imagens uma a uma pelos ares. Eu fico atenta, tenho tentado estar mais atenta, mas alguma coisa sempre me distrai, como uma ponte uns dias atrás, cheia de cadeados prendendo o amor e isso e me causou certa repulsa. Não gosto da imagem de um amor preso num cadeado. Não parece amor, me parece outra coisa. Como se houvesse uma obrigatoriedade. E acho que o amor não tem nada dessas coisas. Tem é com vontade, com o que costumamos chamar de saudades, com querer estar perto, ter vontade de abraçar e de pedir por beijos no escuro. Penso também neste tempo estranho quando não se consegue distinguir muito bem entre uma coisa e outra. Como lembro ter ficado alguns meses impossibilitada de encontrar abrigo em qualquer coisa, sem encontrar nem mesmo uma palavra ou uma imagem que justificasse, e aí, como uma espécie de apagamento, eu via e ouvia o mundo, mas nada dele eu conseguia tocar. Não que eu não tocasse ou não tentasse. Eu estive muito perto até da voz e da pele, mas é como se, ao tocar e ao ouvir aquela voz, ao mesmo tempo, não conseguir acessar aquele instante, não havia ali nenhuma voz humana capaz de me fazer estremecer. Eu estava intocada, com veludos escuros fazendo essa barreira estranha, macia, aveludada. Talvez essa barreira que meu corpo criou foi para me proteger. O tempo é mesmo estranho, já fazia meses que ele havia partido quando isso aconteceu. E o silêncio que fui acometida durou todo o último inverno. Estou dentro de outro inverno agora, porque viajei, e deixei o verão para trás. Sei que o calor anda aterrorizante, e sei também, que é apenas por estar mais longe agora, que eu consiga sentir falta dele, falta da areia do mar, e de sentir o toque morno na planta dos pés, como o afago terno que não consigo esquecer, o gesto ligeiro e derradeiro, um derramamento insólito e quando vem esta vontade, uma bobeira de andar na beira da praia no sol outra vez. Agora que sou na materialidade concreta do signo, um estrangeiro, tenho sentido tanto, tudo, e às vezes tenho a sensação de febre. O meu corpo não alcança ainda, ou parece não conter todo esse tanto. Então estranho e não sei distinguir o calor do frio. Enquanto escorrem gotas e mais gotas de suor pelos meus braços, meus pés ficam gelados e o frio se torna aterrorizante por um tempo, invade o meio das costas, e mesmo o chá quente e o casaco não conseguem me aquecer. Penso então, e outra vez, como isso me perturba às vezes, não saber distinguir muito bem entre uma coisa e outra. Ter no corpo em pleno inverno, um verão, que subtrai e acrescenta calor ao mesmo tempo. Essas variações, avariações de mim.
domingo, 19 de janeiro de 2014
Excrescência
Substantivo feminino: Saliência; elevação que ocorre sobre a superfície de alguma coisa: excrescência observada num terreno qualquer. O que retira o equilíbrio completo de alguma coisa. Aquilo que está em excesso; o que nasce a mais. Figurado. Coisa inútil ou desnecessária: modificar o sentido de um texto pode ser uma excrescência estilística. Patologia. Tumor, mais ou menos volumoso, presente na superfície de um órgão.
(Etm. do latim: excrescentia)
(fonte:http://www.dicio.com.br/excrescencia/)
(Etm. do latim: excrescentia)
(fonte:http://www.dicio.com.br/excrescencia/)
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