domingo, 23 de fevereiro de 2014

fragmento,

"O que acontece? Ele perde tudo. Mas perde tudo como se fosse nada. Perde tudo como se não houvesse diferença entre perder e ganhar. Nada mais do universo dessa circulação e das quantidades pode tocá-lo. Porque tudo isso foi reduzido a dimensão do MESMO. Como ele diz, como a gente ouve num momento bem impressionante: 'O Capital perdeu a sua qualidade narrativa', ou seja, ele não conta mais nada, ou seja, ele não diz mais nada, ele simplesmente dissolve os objetos através de uma circulação incessante. E dentro desse universo, a única coisa real é o choque. A única coisa real é a colisão. A única coisa real é a crise. A única coisa real é a morte. Ou seja a única coisa real é a dissolução."

fragmento do comentário sobre o filme Cosmópolis, de David Cronenberg, em

[Falar de si, lá onde não há mais si mesmo - Vladimir Safatle, disponível em http://www.cpflcultura.com.br/2012/10/05/falar-de-si-mesmo-la-onde-nao-ha-mais-si-mesmo-a-arte-contemporanea-e-sua-forca-construtiva-vladimir-safatle/]

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

M7 M7bis, Station Stalingrad


Vi você na rua outro dia, antes ainda. No corpo esbelto fino da modelo alemã. Vi depois no metro, no meio da tarde, você me olhou e fez que não era nada, esqueceu de cumprimentar. Eu ri um pouco dessa sua descompostura. E uma última vez, você usava aquele blazer azul de lã, de inverno, tão frio na rua, e uma calça cáqui. Dessa vez você não me viu. Estava muito ocupado ouvindo atentamente o que menina de cabelos longos dizia, eu andava pelo parque e cruzei com você, você estava bonito. Tentei desviar a rota, escolhi uma estradinha cheia de poças, mas o caminho ficou tão lamacento, que acabei voltando para a rua principal do parque e foi aí que segui você de longe, até você sumir naquela curva, com a menina. Eu fico pensando nesse olho opaco, que desfragmenta e faz fratura, que arremessa as imagens uma a uma pelos ares. Eu fico atenta, tenho tentado estar mais atenta, mas alguma coisa sempre me distrai, como uma ponte uns dias atrás, cheia de cadeados prendendo o amor e isso e me causou certa repulsa. Não gosto da imagem de um amor preso num cadeado. Não parece amor, me parece outra coisa. Como se houvesse uma obrigatoriedade. E acho que o amor não tem nada dessas coisas. Tem é com vontade, com o que costumamos chamar de saudades, com querer estar perto, ter vontade de abraçar e de pedir por beijos no escuro. Penso também neste tempo estranho quando não se consegue distinguir muito bem entre uma coisa e outra. Como lembro ter ficado alguns meses impossibilitada de encontrar abrigo em qualquer coisa, sem encontrar nem mesmo uma palavra ou uma imagem que justificasse, e aí, como uma espécie de apagamento, eu via e ouvia o mundo, mas nada dele eu conseguia tocar. Não que eu não tocasse ou não tentasse. Eu estive muito perto até da voz e da pele, mas é como se, ao tocar e ao ouvir aquela voz, ao mesmo tempo, não conseguir acessar aquele instante, não havia ali nenhuma voz humana capaz de me fazer estremecer. Eu estava intocada, com veludos escuros fazendo essa barreira estranha, macia, aveludada. Talvez essa barreira que meu corpo criou foi para me proteger. O tempo é mesmo estranho, já fazia meses que ele havia partido quando isso aconteceu. E o silêncio que fui acometida durou todo o último inverno. Estou dentro de outro inverno agora, porque viajei, e deixei o verão para trás. Sei que o calor anda aterrorizante, e sei também, que é apenas por estar mais longe agora, que eu consiga sentir falta dele, falta da areia do mar, e de sentir o toque morno na planta dos pés, como o afago terno que não consigo esquecer, o gesto ligeiro e derradeiro, um derramamento insólito e quando vem esta vontade, uma bobeira de andar na beira da praia no sol outra vez. Agora que sou na materialidade concreta do signo, um estrangeiro, tenho sentido tanto, tudo, e às vezes tenho a sensação de febre. O meu corpo não alcança ainda, ou parece não conter todo esse tanto. Então estranho e não sei distinguir o calor do frio. Enquanto escorrem gotas e mais gotas de suor pelos meus braços, meus pés ficam gelados e o frio se torna aterrorizante por um tempo, invade o meio das costas, e mesmo o chá quente e o casaco não conseguem me aquecer. Penso então, e outra vez, como isso me perturba às vezes, não saber distinguir muito bem entre uma coisa e outra. Ter no corpo em pleno inverno, um verão, que subtrai e acrescenta calor ao mesmo tempo. Essas variações, avariações de mim.


domingo, 19 de janeiro de 2014

Excrescência

Substantivo feminino: Saliência; elevação que ocorre sobre a superfície de alguma coisa: excrescência observada num terreno qualquer. O que retira o equilíbrio completo de alguma coisa. Aquilo que está em excesso; o que nasce a mais. Figurado. Coisa inútil ou desnecessária: modificar o sentido de um texto pode ser uma excrescência estilística. Patologia. Tumor, mais ou menos volumoso, presente na superfície de um órgão.
(Etm. do latim: excrescentia)

(fonte:http://www.dicio.com.br/excrescencia/)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Esboço

Ela guarda imagens dentro de um envelope - tamanho: pequenos e variados. Não interessam as imagens. Mas o seu emaranhado. O baralhamento delas.
Um acúmulo de imagens.
Sobrepostas, fragmentárias, aos pedaços, as imagens sobrepostas, recortadas.
Uma sobre as outras. Todas elas juntas, aqui. Uma nova imagem. Pedaços. Acúmulo. Uma única imagem: despedaçada e inteira ao mesmo tempo.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Lavo as vagens frescas, corto em pedaços, verdes. São tão verdes e tão frescas, e penso na transparência das cidades que ele descreveu para mim. Onde não posso escolher entre, o fim. Mas posso dizer que sim, que é cheio ainda de manhã, que os gestos descritos como uma forma amorosa de coragem me dizem agora, quando escuto e pauso, três ou quatro vezes a mão no teu silêncio. Pouso leve, e breve, quero partir o quanto antes para a cidade estrangeira e despedir das saudades imensas de tudo o que não vivi.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Poema em três tempos

I
Havia raiz mas não havia chão.


II
Raiz de desejo
Cereja
Abismo de duas ou mais margens.



III
Perdi um jeito de abismar que eu tinha.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Antigo, [2009] achei movida pela voz de Ana Cristina Cesar

Fui ler antigos e guardados, hoje longe, soa bonito, se chama

Fevereiro, 17

Eu que já pedi chorando para que não me deixasse. Eu que já chorei sozinho tantas vezes. Perdido na incompreensão da falta. A falta da infância tão dolorosa e tão simples de ser suprida, se.
Eu que nesta hora te abandono. Eu que nesta hora me desperto para o segredo de uma distância íntima, em que atravesso águas e pedras, mas sempre sozinho, sempre, num lugar onde amor congela e as paixões sobrevoam em precipitais tormentas nebulosas. Paixões com gosto de inefável e impossível porto. Paixões cegas e com referências brancas, que nunca serão preenchidas de continuum, porque o amor, tristonho, me arremeda para lugares longes de um solo, longe de qualquer ancoradouro.
Eu diria que estou cansado e que não posso mais continuar, mas não é verdade. Sinto uma tristeza tristíssima e me penso, assim, atordoado entre resoluções próprias e fins.
Eu diria que o amor é um engodo, lugar de não estar. Diria que o amor é o que eu não conheci, e errando sempre, repudio a possibilidade de habitá-lo.
Estranha conjunção esta de abolir o vínculo que me tornaria dois.
Estranho o choro que me encontro. Quando sou eu que decido por este fim.


escrito em 17 de fevereiro de 2009, desejo de escritura misturado com esta escrita de diário, e nem uma coisa e nem outra. Um dia chego lá, onde "A poesia não comunica" Ana Cristina César, em:

http://radiobatuta.com.br/Episodes/view/482