mínimo ruído
de um lugar-nenhum.
E uma pausa que cobre muitos-todos
lugares sem espaço.
Cosmos mínimo e intenso.
Sinto grãos de areia se locomoverem no vento.
Grãos brancos e
assinaturas sem nome.
sem nome.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
terça-feira, 17 de janeiro de 2017
Linha ou um lapso de tempo
Fio, fio
fino, de quase e sopros. Muito breve, ali. Sou feita de começos, de quase e
cintilâncias-poeira, partículas pairando contra o sol, e a mão dele, que me
alcança por dentro da distância de infinitas horas. Preciso. Tocar e leve,
muito leve nessa estrela que parte antes mesmo de chegar. Tudo em mim é côncavo
e nacarado, uma concha que dança no corpo da água e da espuma, e me diz, como
canto de sereia e um jardim de corais que o mar não tem começo e nem fim. Mas
molha e salga a pele, e às vezes fica até feito maresia que impregna e penetra
a superfície.
04 de janeiro de 2017.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
Lapso II, ou
Ou Notas de Diário II,
Meu ultrapassamento
Meu ultrapassamento
Me guarde amor, dentro das teclas do piano e ali, me
esconda. Em silêncio não repita, não repita, não repita mais essas palavras,
essa desconexão tardia a fome não pertence ao corpo. Essa fome que eu sinto não
é tua, não é dela, não é de lugar nenhum. É do navio que parte em direção ao
nada, é a nostalgia da beleza que dura cada instante. E que eu só soube perder
mais a cada hora. E o tudo que eu te dei de amor, é só nau-frágil. É o que não
há corpo para tocar. É só uma coisa louca que inventei. E que não tem sentido.
É uma coisa de brisa de mar, de beira de praia, de amarelos e farelos de pedras
de milhões de anos de partículas. É um desfazimento, é um desfeito um
desencontrar excesso excessivo que a própria palavra cria, a linguagem que
escreve. Não sou eu. São essas letras. E o que elas dizem é uma sombra de
árvore na calçada de um dia muito quente de janeiro no hemisfério sul do mundo.
26.01.2015
quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
Lapso, ou
Notas de Diário,
20.12.2013
Continuo sem saber nada deles. Pobres homens? Que têm um medo terrorífico de tentar. Desejo que encontrem amor, leveza, momentos luminosos.
22.12.2013
Passei o dia ontem esperando o nada. Chorei muito antes de dormir. Sonhei a noite alucinando a presença. Fui até o tempo antigo dos romanos e já lá a aridez estava presente.
16.12.2013
0h21
Ando no escuro. Paris em passos se aproxima e enlouqueço de medo de não ver.
12.12.2016
Remexi nos mortos. Nela. Havia milagre em nossas mãos. Não sabíamos. Existimos, simplesmente. Pedaços de estrelas no chão.
Hoje. Uma vida que nasce a cada hora. Mesmo que eu não possa quase nada, respiro e penso, que eu quero e digo sim para mim e para o mundo. Estou sempre à espera de nascimento.
20.12.2013
Continuo sem saber nada deles. Pobres homens? Que têm um medo terrorífico de tentar. Desejo que encontrem amor, leveza, momentos luminosos.
22.12.2013
Passei o dia ontem esperando o nada. Chorei muito antes de dormir. Sonhei a noite alucinando a presença. Fui até o tempo antigo dos romanos e já lá a aridez estava presente.
16.12.2013
0h21
Ando no escuro. Paris em passos se aproxima e enlouqueço de medo de não ver.
12.12.2016
Remexi nos mortos. Nela. Havia milagre em nossas mãos. Não sabíamos. Existimos, simplesmente. Pedaços de estrelas no chão.
Hoje. Uma vida que nasce a cada hora. Mesmo que eu não possa quase nada, respiro e penso, que eu quero e digo sim para mim e para o mundo. Estou sempre à espera de nascimento.
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
Constelação
Ou, "no meio de tanta vaga impossibilidade"
Branco, branco, brancura.
O Laranja. E dois pontos
pretos miúdos.
Branco, branco, brancura.
O Laranja. E dois pontos
pretos miúdos.
(março, 2013)
Sobre amar imagens, Clarice:
TENTAÇÃO
Ela estava com soluço. E como se não bastasse a
claridade das duas horas, ela era ruiva.
Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça
da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na
rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não
bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a
momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma
menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento.
Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma
revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la
erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num
degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha
de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado,
apertando-a contra os joelhos.
Foi quando se aproximou a sua outra metade neste
mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo
quente da esquina acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão.
Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset
ruivo.
Lá vinha ele trotando, à frente da sua dona,
arrastando o seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.
A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente
avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.
Entre tantos seres que estão prontos para se
tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter
aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos,
fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a
desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e
continuou a fitá-lo. Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.
Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se
apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que
sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento,
surpreendidos.
No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto
sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a
serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma
menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos,
entregues, ausentes do Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se
quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.
Mas ambos eram comprometidos.
Ela com sua infância impossível, o centro da
inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza
aprisionada.
A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O
basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou
espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe
compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada
sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina.
Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez
olhou para trás.
Clarice Lispector. in
"Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998
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