sábado, 5 de março de 2022
Rascunho, 2010, inverno
quarta-feira, 30 de dezembro de 2020
Dezembro 2020
E encontramos sob a chuva. Resquícios de nossas ausências. Encontro estranho esse, e cheio de defesas. Como se o encontro (ainda que absolutamente) fora de qualquer temporalidade humana. Fosse uma granada imediatamente acionada. Capaz de implodir tudo o que hoje chamamos de VIDA. Estranha maneira de se desencontrar. Uma espécie de CATA/VENTO numa cidade estrangeira e incapazes de balbuciar uma palavra inteira.
Você?
Hiato.
Vírgula.
Resquícios de linguagem. Ausência mútua é tudo o que nos sobra. E essa noite, quando tocamos de leve no abismo negro de nossas pupilas aguardentes, é por dentro do rio que passam nossas vidas. A umidade desses restos de florestas que insistimos em procurar. Por quanto tempo ainda, resistirá, a floresta, o rio, o canto agudo das cigarras? E a suspeita que eu tenho é que de uma maneira subterrânea e obscura. É no traçado de nossas letras que fazemos ainda, encontros
insabidos, Ou, recusados,
mais uma vez, revestidos de recusa.
mas quem sabe um dia, será possível voltar a andar nas ruas de uma velha cidade e abrir fendas nos territórios duros das certezas. A lua cheia dessa noite abriu caminho por entre as nuvens carregadas, depois da tempestade, e sorriu branca e iluminada. O som dos grilos se mistura aos barulhinhos eletrônicos de Cocorosie que insistem. Esses tempos que de repente se chocam, pulam para fora do mapa, outros tempos, que moram no imprevisto das horas.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2020
Teoria da Poesia Concreta ou Memória
Toco nas páginas e é como se eu tocasse outra vez o teu corpo.
A distância do tempo, das horas, se desfazem, assim como nosso último encontro. Fazia cinco anos, e tudo estava vivo, intenso, alucinadamente intenso demais. Sempre foi demais. Tenho medo. Tenho medo de abrir o livro e ver o que vou encontrar lá. Se no primeiro toque teu corpo me encharca, os olhos molham. Porque eu haveria de abrir esse corpo? Outra vez, e abismar tantos anos. A memória é intensiva. Um campo afetivo explode em silêncio. Uma explosão silenciosa de todas as letras que nós nunca nos dissemos. Porque todas elas eram excessivas. Uma palavra tua. Era. O mar inteiro. Eu nunca soube porque. Mas agora eu me lembro. Eu me lembro. Eu me lembro que as duas vezes que você veio na minha direção eu fugi, longe, corri pra longe, parecia que o infinito não cabia na minha pele.
Gosto da frase de Petra Costa no documentário Elena, 'se você me toca eu viro água', eu desmancho. E você nem sequer respondeu o meu último email, o último sonho que eu tive com você. No último encontro você me contou de uma vida que parecia engraçada. Comandos militares para meninos, pagando por coisas sem sentido, e você dizia que tudo que você fazia você pensava em quanto me faria rir, você me conta que conheceu uma psicóloga que tinha o meu nome, toda tua vida eu tava lá, como uma memória, uma lembrança, um endereçamento que nunca pode acontecer até o fim.
E agora eu toco no livro da Teoria da Poesia Concreta e você mora nele, e eu nem sabia, que tava guardado todo esse tempo. Tenho medo. Mas vou abrir o livro e te encontrar de novo.
quinta-feira, 24 de outubro de 2019
Alcoolicas
Embaralham
A data na foto é o último resquício
De uma outra vida
Ele sumiu da sua agenda telefônica
e você não lembra se foi você mesmo que
apagou
Ou se foi ele que se despediu quando
ninguém estava olhando
Você encontra no fundo do Fundo
Uma saudade que nunca mais
E talvez todos esses outros sejam só
uma sobra sombra dEle
sábado, 28 de setembro de 2019
Cenas de fim de janeiro/setembro ou De um amor nascendo e morrendo
Setembro
Você dá o primeiro passo rumo ao desconhecido, e ele te acolhe inteira. Te engolfa. São novas camadas de existência que você atravessa. Tem medo de nascer todas as vezes, mas é porque você já está nascendo. Sente que é uma nova gravidade. Uma nova cadência, tem corpo de veludo e vinho tinto.
Janeiro
1. São Letras você pensa. São apenas letras você gostaria de acreditar. O que realmente a incomoda são as letras não pronunciadas. Gostar de alguém implica em tantas incertezas e você está farta delas.
2. O difícil é perceber os sentidos que são possíveis de compartilhar com o outro. E o nome que podemos dar para as coisas. Tão fácil gostar de você eu escrevi. Fácil, fácil.
3. Despossuir: Objetos. Alegrias. Certezas. Despossuir o medo.
4. Pensamento. E você não pode prever. Quando é cedo ou tarde demais.
5. O que dói. É não fazer diferença, marca ou lugar. Embora M. escreveu para pedir desculpas. E vai faltar.
6."Pertença e pertinença". Ter sido esse lugar na vida de alguém. Pertencer e ser pertinente à vida. Até não ser mais.
7. Lembre de.
8. A nossa alegria, para onde foi?
9. Avise que horas, eu quero abraçar o tempo.
segunda-feira, 10 de junho de 2019
Pétalas Brancas
sábado, 20 de abril de 2019
sábado, 9 de fevereiro de 2019
Cenas de fim de janeiro, início de fevereiro
Objetos. Alegrias. Certezas.
Despossuir o medo, é possível?
"Quem ama, erra"
Despossuí o medo, mesmo que,
por uns segundos apenas.
Perder o medo é dar um abraço no tempo.
terça-feira, 29 de janeiro de 2019
Sopros da manhã - duração uma semana 17/01 a 24/01
aprendeu a se entregar"
ainda que.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2018
segunda-feira, 23 de julho de 2018
SOBREPOSIÇÕES
[Senti o mar na pele dele.
Toquei nas ondas e na imensidão
salgada.
Três anos de lágrimas]
Não sei se posso tocar nas cicatrizes que guardei.
É preciso um mar inteiro de lágrimas
de um amor que já
###############
Fim de julho, 5 meses depois de um assassinato.
[os cúmplices estão todos soltos]
Sonho com restos de
maldadade
Com pedaços de horror/fragmentos
Poeira de crueldade
No fundo da catástrofe
me lembro do seu rosto.
De alguma lembrança borrada
e não consigo mais chorar.
Embora alguma coisa tão
ínfima e desfigurada
Reste no fundo de um
copo sem fundo.
São coisas que não se atravessam. São
as letras do seu nome que ainda restam
dentro do meu.
A violência sem medidas
que deixei morrer
e que abandonei.
quarta-feira, 20 de junho de 2018
sexta-feira, 13 de abril de 2018
segunda-feira, 2 de abril de 2018
Herança de poeta
"São gestos de poeira,
andar de poeta que anda muito desajeitadamente
O mais urgente
(...)
O mais urgente.
Talvez tristeza,
Talvez choro
Bem aventurados são os ursos
Amar
Amar bastante
Sofrer muito
Ser triste
A tragédia nos acompanha: morreremos.
Desse jeito você sempre vai ser só. Não seja assim.
Tente não ser assim. Em você não há busca. Assim não pode ser feliz.
Não é por minha causa que eu digo. Eu confesso, também em mim a procura
acabou. Mas por você, pela felicidade de você, pela ternura. Esse verso vai ficar
piegas e comprido mas não faz mal, não se você entender que essa minha angústia
é por você. Independentemente, por você.
As pessoas, veja as pessoas como elas são. Eu não acredito que elas precisam tanto
de você quanto você precisa delas. E vai ficando tarde, é uma questão de defesa,
não saia por aí assim, por favor, não saia por aí assim tão seguro de si, dispondo
apenas de uma saudade apaziguada para cada grande tristeza que deveria sentir.
Não seja mais assim, desculpa eu repetir. Ou não vão querer você. E desculpe
também por ter falado tanto. Sei que é bobagem minha, mas eu amo você."
(Matheus e Maria Cecília Nachtergaele)
sexta-feira, 16 de março de 2018
Meu Sangue
(trecho poema de Rafael Alberti, que inspirou a tela de Leon Ferrari)
(Leon Ferrari, Sem título [Sermón de la sangue], 1962)
segunda-feira, 12 de março de 2018
O sem-sentido apelo do não
de paraquedas do alto do avião. O paraquedas não abriu,
e eu morri. Dois: um corpo deformado, formas disformes, um borramento narcísico. Não há três. Procura-se agulhas para desarmar bombas: nada pode o ouvido contra o sem-sentido apelo do não. As coisas tangíveis tornam-se insensíveis a palma da mão; Despedir-se. Não ter mais lugar, nem espaço. Compressão do pulmão, dos pulsos, da pele, de um sonho, o fim de um espaço-tempo.Viver num tempo onde o amor perdeu para a banalidade dos corpos. Tentar ser forte agora, que é chegada a nossa hora.Tentar ser forte agora, que é chegada a nossa hora.
quarta-feira, 7 de março de 2018
Quando havia esperança
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018
Poema inacabado
domingo, 24 de dezembro de 2017
O latir dos pulsus
Repulsivo
Re pulsão
Pulsão
Ré
[Dar a ré - andar para trás]
Pulsar - Ar
Pular - Jump
SUL - AR
[Quando o ar do Sul pode pesar no verão]
Rua - Sep
[Septicemia, - CEP - sepse
Quando um endereço pode ser um tipo de infecção que mata]
Infectar o sangue
Quando o endereçamento pode ser uma infecção sanguínea
Pular - Jump
[Para DENTRO ou para FORA?]
Puls (AR) - vôo ou queda?
Dar a ré: andar para trás.
Ré
Pulsão
Re pulsão
Repulsivo
Repulsa.
Repulsa: do lat. REPULSUS, particípio passado de REPELLERE "repudiar, empurrar para trás", de RE - "para trás", mais PELLERE, "bater, empurrar"
Também o contrário da atração.
Ainda:
Latim: repulsa - ae, revés, mau êxito, recusa.
(latir) pulsa: banido
repulsus: alergia, banido.
segunda-feira, 20 de novembro de 2017
No meio do caminho
Tinha a arte no meio do caminho
Tinha a arte
No meio do caminho tinha a arte
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha a arte
Tinha a arte no meio do caminho
No meio do caminho tinha a arte.
